Quinta-feira, 28 de julho de 2016
 
Notícia

No campo, mais de 37 mil escolas fechadas

Problemas de acesso, infraestrutura e formação de professores afetam área rural, onde analfabetismo chega a 23%
Nota do CDES
: Conselho acompanha indicadores de desigualdades na escolarização e defende, desde 2006, a prioridade para ações da política educacional voltada para valorização da população do campo, com melhoria da rede de escolas rurais e adoção de metodologias apropriadas para redução dos graves índices de analfabetismo e da baixa escolaridade, proporcionando desenvolvimento amplo e integral, tanto das pessoas, quanto das comunidades rurais a que pertencem. Leia abaixo a íntegra da matéria publicada.

Karine Rodrigues e Letícia Lins

31/10/2011

 

 

Superar as desigualdades na educação do País é fator estruturante para a promoção do desenvolvimento sustentável -  Foto: João Bittar MEC Superar as desigualdades na educação do País é fator estruturante para a promoção do desenvolvimento sustentável - Foto: João Bittar MEC

No campo, mais de 37 mil escolas fechadas

Problemas de acesso, infraestrutura e formação de professores afetam área rural, onde analfabetismo chega a 23%

ESCADA (PE) e RIO. "Vai reformar"; "Quando é que as aulas começam?"; "Vai ter 6ª série?", pergunta, quase sem pausa, Heronildo José de Araújo, 11 anos, confundindo a equipe de reportagem com autoridades da prefeitura de Escada, município a 62 quilômetros da capital pernambucana. Ele vive em uma casa no Engenho Canto Escuro, em frente à Escola Municipal Tiradentes, um dos 37.776 estabelecimentos de ensino rurais do país que fecharam as portas nos últimos dez anos, segundo dados do Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC).

- Não gosto de viajar todos os dias para tão longe - reclama o menino, que sente enjoo no sacolejo do ônibus escolar e tem dois irmãos que também estudam muito distante de casa.

O número de escolas fechadas impressiona, mas está longe de ser o único dado que chama atenção na educação do campo, onde existem cerca de 80 mil estabelecimentos de ensino. Entre a população de 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo na zona rural chega a 23,3%, três vezes maior do que em áreas urbanas, e a escolaridade média é de 4,5 anos, contra 7,8 anos, mostra estudo de 2009 da socióloga Mônica Molina e mais dois especialistas para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.

- A ausência do Estado na garantia do direito à educação se traduz na precariedade da oferta. As alterações ocorridas nos últimos dez anos foram pequenas. Os professores são mal formados, não há infraestrutura e nem material pedagógico - avalia Mônica, professora da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo ela, o fechamento das escolas, em geral, resulta de expansão do agronegócio e da nucleação - quando escolas de menor porte são extintas e os alunos, transferidos para unidades mais distantes e maiores. Mônica observa ainda que as diretrizes do setor dizem que a nucleação deve ser feita após os cinco anos iniciais do ensino fundamental e, preferencialmente, em escolas situadas também no campo, e não na área urbana.

Na opinião de Mônica, as políticas públicas para o campo precisam não só vincular o Desenvolvimento à educação, mas garantir outros direitos:

- Ter acesso à terra é a primeira condição para o cidadão permanecer onde está e levar os filhos para a escola. O que está causando o fechamento das escolas não é só a nucleação. As áreas rurais estão sendo engolidas pela concentração fundiária. E os pais enfrentam de tudo para as crianças estudarem.

Que o diga José dos Santos, que foi morar na periferia de Escada para garantir o estudo dos filhos. Com o fechamento da Tiradentes, este ano, os dois filhos ficaram quatro meses sem aula.

- A escola era pequena, mas servia à comunidade. Tinha 14 alunos. Era pobre, não tinha luxo, mas fechar é muita perda - lamenta a mulher de José, Edna, que, assim como o marido, estudou somente até a 4ª série e deseja bem mais para os filhos.

Com pós-doutorado em Educação, Eliane Dayse Furtado, da Universidade Federal do Ceará (UFC), também considera que a nucleação está por trás de boa parte do fechamento das escolas. Foi o que constatou ao percorrer 14 estados das cinco regiões do país em projetos de formação de educadores rurais. Na ocasião, também ouviu reclamações sobre precariedade do transporte escolar.

- Outro dia, em Redenção (CE), as crianças ficaram três semanas sem aula porque o único ônibus quebrou. E, quando chove, ele não passa - conta ela.

Professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Sonia de Jesus observa que, apesar dos problemas que comprometem a qualidade na educação do campo, quem mora na área rural quer frequentar a escola:

- Tem estabelecimentos sem banheiro, com paredes rachadas, sem material pedagógico. Mas, ainda assim, a população quer estudar. E há professores que, apesar dos problemas, fazem de tudo para dar aula.

Ednalva Cavalcanti, que hoje ensina 12 alunos, é assim, mas está desanimada, pois acha que a Escola Santa Rita, em Escada, está marcada para morrer: das três salas, duas estão fechadas.

- É triste ver o pessoal indo embora para dar lugar à cana - diz, informando que, em média, os alunos passam apenas três horas na escola, considerada uma das mais conservadas da área rural do município, pois tem alpendre, luz e água.

Entre 2007 e 2011, seis escolas municipais cerraram as portas em Escada, diz a secretária de Educação do município, Elizabeth Cavalcanti, explicando que a Tiradentes fechou por falta de alunos no Canto Escuro, onde O GLOBO computou, pelo menos, 20 moradias próximas:

- No engenho, só há quase adultos e adolescentes.
As três pesquisadoras ressaltam que a educação no campo é melhor nos assentamentos, por pressão e organização de movimentos sociais, como MST, que, recentemente, lançou a campanha "Fechar escola é crime".

O MEC informa que municípios, estados e DF recebem apoio técnico e financeiro por meio de várias ações e programas para educação do campo, onde estão quase 50% das escolas da educação básica do país, e diz que está elaborando um programa para implementar a Política de Educação do Campo. Destaca ainda que orienta para que a nucleação ocorra "quando realmente necessária", e dentro das diretrizes da área.

 

Observatório da Equidade do CDES: os quatro Relatórios de Observação das Desigualdades na Escolarização já publicados indicam significativas diferenças no desempenho de estudantes de escolas rurais e de escolas urbanas.  Esse fechamento de escolas no campo acirra as persistentes desigualdades entre eles.

O Acordo para o Desenvolvimento Sustentável – documento do CDES em articulação com cerca de 70 organizações sociais apresentado à Comissão Brasileira para a Rio+20 – defende um modelo de desenvolvimento sustentável nas cidades e no campo, com foco na melhoria da qualidade de vida das pessoas, garantindo acesso à população das cidades e do campo aos bens públicos, como educação, saúde, habitação, saneamento básico, infraestrutura, cultura e lazer; além de ações de combate à pobreza e de transferência de renda.

Indicadores de desigualdade na escolarização para população urbana e rural

  RURAL URBANO DESIGUALDADE
Média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais 4,8 anos 8,0 anos 3,2 anos
Analfabetismo 23% 7,4% 15,4%
Fonte: PNAD/IBGE. 2009

 

 

Documento relacionado

 Acordo para o Desenvolvimento Sustentável - Rio +20 - 10/2011
    Autor: Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - CDES

Publicada no Globo

Conheça o Observatório da Equidade do CDES 

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